
Latência de rede explicada: para onde vão os milissegundos
De que é feita a latência de rede, o mínimo imposto pela distância e medições reais dos nossos servidores até Nova Jérsia, Singapura, Tóquio e Sydney.
A latência de rede é o tempo que um pacote demora a chegar ao destino e a voltar, ou seja, o tempo de ida e volta (RTT), em milissegundos. Compõem-na quatro coisas: a distância que o sinal percorre, a rota que as redes escolhem, as filas em que espera e as idas e voltas que os protocolos das camadas superiores acrescentam. Só a primeira é imposta pela física. Este guia analisa cada uma, por ordem, com medições reais feitas a partir dos nossos servidores em Falkenstein (Alemanha) e Gravelines (França) a 7 de outubro de 2026.
De que é feita uma ida e volta
| Componente | O que é | Valor típico |
|---|---|---|
| Propagação | A luz na fibra ótica viaja a cerca de 200.000 km/s, dois terços da sua velocidade no vácuo: 1 ms de ida e volta por cada 100 km de cabo | Menos de 1 ms numa cidade, 60 a 90 ms através do Atlântico, 160 ms ou mais até ao outro lado do mundo |
| Serialização | Pôr os bits de um pacote na linha: 1.500 bytes levam 12 µs a 1 Gbit/s | Desprezável, exceto em ligações lentas: 1,2 ms por pacote completo a 10 Mbit/s |
| Filas de espera | A espera no buffer de um router ou de um modem quando uma ligação está ocupada | Zero num caminho sem carga, centenas de milissegundos quando um buffer enche |
| Processamento | O router a decidir para onde enviar o pacote | Microssegundos no hardware atual |
É comum pensar-se que «cada salto acrescenta alguns milissegundos». Não é assim: encaminhar um pacote demora microssegundos. Quando os tempos de um traceroute crescem de um salto para o seguinte, é a distância, ou uma fila, ou o router a demorar a responder à sonda enquanto encaminha todo o resto à velocidade máxima.
A distância impõe um mínimo
A ida e volta mais curta possível corresponde à distância pelo círculo máximo, percorrida à velocidade da luz na fibra. Os cabos reais nunca seguem o círculo máximo, e as rotas reais raramente usam o cabo mais curto. Eis quão longe desse mínimo ficaram as nossas medições (média de 60 a 100 sondas por destino, com o mtr):
| De → para | Distância | Mínimo em fibra | Medido | Rácio |
|---|---|---|---|---|
| Gravelines → Cloudflare 1.1.1.1 (Paris) | 237 km | 2,4 ms | 4,9 ms | 2,0× |
| Falkenstein → Cloudflare 1.1.1.1 (Frankfurt) | 265 km | 2,6 ms | 5,9 ms | 2,3× |
| Gravelines → Nova Jérsia | 5.779 km | 57,8 ms | 71,7 ms | 1,2× |
| Falkenstein → Nova Jérsia | 6.462 km | 64,6 ms | 86,4 ms | 1,3× |
| Falkenstein → Singapura | 9.994 km | 99,9 ms | 165,5 ms | 1,7× |
| Falkenstein → Tóquio | 9.134 km | 91,3 ms | 273,6 ms | 3,0× |
| Falkenstein → Sydney | 16.220 km | 162,2 ms | 341,2 ms | 2,1× |
Em distâncias curtas, dominam os custos fixos (o equipamento, os últimos metros de cablagem, o tempo que o destino demora a responder), e o rácio parece mau, embora os valores absolutos sejam ínfimos. Em distâncias longas, o que conta é a rota. Para Tóquio, a latência é o triplo do mínimo porque os pacotes não vão para lá diretamente: o rastreio sai da Europa pela rede da Arelion, chega a Singapura aos 169 ms e depois a Tóquio, aos 246 ms. No nosso estudo da latência cloud a partir de 33 cidades, de Joanesburgo a São Paulo foram precisos 351 ms no melhor dos casos, para um mínimo de 74 ms: os pacotes passaram pela Europa.
O mesmo destino, duas rotas
O mesmo host da Vultr em Nova Jérsia, medido no mesmo minuto a partir dos nossos dois servidores:
A partir de Falkenstein (Hetzner, AS24940)
5. AS201011 ae12-499.nbg40.core-backbone.com 0.0% 100 3.2 3.0 2.7 3.3 0.1
6. AS201011 ae7-2093.nyk10.core-backbone.com 0.0% 100 86.6 86.7 86.5 87.0 0.1
11. AS20473 108.61.149.182.vultrusercontent.com 0.0% 100 86.2 86.4 85.9 107.1 2.1
A partir de Gravelines (OVHcloud, AS16276)
10. AS16276 be102.lon-drch-sbb1-nc5.uk.eu 1.0% 100 3.8 3.7 3.5 4.1 0.1
11. AS16276 nyc-ny1-sbb2-8k.nj.us 0.0% 100 73.0 73.4 71.6 76.0 0.8
13. AS??? nyiix.gi3-6.cr1.nyc1.choopa.net 0.0% 100 72.7 72.5 72.3 73.0 0.1
17. AS20473 108.61.149.182.vultrusercontent.com 0.0% 100 71.7 71.7 71.5 73.0 0.2
Dos 14,7 ms de diferença, só metade se deve à distância (os mínimos diferem 6,8 ms). O resto é a rota: a partir de Gravelines, a OVH transporta o tráfego na sua própria rede, via Londres, até Nova Iorque e entrega-o à Vultr no NYIIX, um ponto de troca de tráfego de Nova Iorque; a partir de Falkenstein, a Hetzner entrega-o à Core-Backbone em Nuremberga, que atravessa o Atlântico. Escolher um alojamento, ou um fornecedor, é também escolher as respetivas rotas.
Filas de espera: a latência que vai e vem
A propagação não muda. As filas, sim. Nos caminhos acima, sem carga, a dispersão nos destinos ficou entre 0,1 e 2,1 ms em 100 sondas. Numa ligação doméstica, um único upload grande pode encher o buffer do modem e acrescentar centenas de milissegundos a tudo o resto: é o bufferbloat.
Para o testar, execute ping 1.1.1.1 e, enquanto decorre, inicie um upload grande e depois um download grande. Se os tempos subirem de 15 ms para 200 ms ou mais e voltarem a descer quando a transferência terminar, o problema é o buffer. A solução está no router: gestão inteligente de filas (fq_codel ou CAKE, disponíveis no OpenWrt e em muitos routers recentes), ou limitar o débito da ligação um pouco abaixo da velocidade nominal.
Os protocolos multiplicam as idas e voltas
Uma nova ligação HTTPS paga várias idas e voltas antes de chegar o primeiro byte da página: uma consulta DNS, se o nome não estiver em cache, uma para o handshake TCP, uma para o TLS 1.3 (duas para o TLS 1.2) e uma para o próprio pedido. Contando quatro:
| Ida e volta | 4 idas e voltas |
|---|---|
| 6 ms (um servidor próximo) | 24 ms |
| 86 ms (da Alemanha a Nova Jérsia) | 344 ms |
| 341 ms (da Alemanha a Sydney) | 1,4 s |
A mesma aritmética aplica-se a tudo o que é sequencial: uma aplicação que faz 20 consultas, uma após a outra, a uma base de dados a 80 ms de distância espera 1,6 segundos. O HTTP/2 e o HTTP/3 reutilizam ligações, o TLS 1.3 e o QUIC encurtam os handshakes, e menos pedidos sequenciais reduzem o resto.
Quanto é demasiado
| Utilização | Confortável | Percetível |
|---|---|---|
| Chamadas de voz e vídeo | Menos de 150 ms num só sentido, a recomendação ITU-T G.114 | Acima disso, as pessoas começam a falar umas por cima das outras |
| Jogos online rápidos | Abaixo de uns 50 ms de ida e volta | Acima de 100 ms, a maioria dos jogadores sente-o |
| Páginas web e APIs | Depende do número de idas e voltas sequenciais | Cada ida e volta a mais soma-se ao tempo até ao primeiro byte |
Meça por si
ping -c 20 host: o mínimo é o seu limite inferior nesse caminho, a média a sua latência habitual e omdevo jitter.mtr -rwz -c 100 host: em que ponto do caminho se acrescenta o tempo (veja como ler um relatório mtr).- A partir de vários locais: o nosso teste de latência cloud mede a latência do seu navegador até 36 regiões da AWS, OVHcloud, Vultr e Akamai, e o TraceMapper rastreia a mesma rota a partir de mais de 30 locais.
O que pode mudar e o que não pode
- Distância: só aproximando o servidor dos utilizadores, ou acrescentando uma região ou uma CDN. No nosso estudo de 33 cidades, Frankfurt, sozinha, servia 14 cidades em menos de 100 ms; Frankfurt e Singapura em conjunto, 27.
- Rota: escolhendo um fornecedor cuja rede e cujo peering se adequem aos seus utilizadores. Não pode mudar a política de roteamento de outra rede.
- Filas: gestão inteligente de filas em casa e, num centro de dados, não pôr as ligações a 100%.
- Idas e voltas: reutilização de ligações, TLS 1.3, cache de DNS, menos chamadas sequenciais.
Para a parte prática, veja como reduzir a latência de rede.