
ASN e roteamento BGP: como o tráfego encontra o caminho
O que é um sistema autónomo, como o BGP escolhe um caminho entre 88.000 deles, com caminhos de AS reais dos coletores do RIPE e dos nossos rastreios.
A internet não é uma rede, mas dezenas de milhares de redes que aceitam transportar o tráfego umas das outras. Cada uma é um sistema autónomo (AS), identificado por um número (ASN), e o BGP (Border Gateway Protocol) é a forma como dizem umas às outras que endereços conseguem alcançar. Este guia explica os dois com dados reais: caminhos de AS registados pelos coletores de rotas do RIPE e traceroutes feitos a partir dos nossos servidores, a 7 de outubro de 2026.
O que é um sistema autónomo
Um AS é uma rede, ou um conjunto de redes, sob a gestão de uma única organização e com uma única política de roteamento: um fornecedor de acesso à internet, uma empresa de cloud ou de alojamento, uma universidade, uma grande empresa. O seu número é atribuído por um dos cinco registos regionais da internet (AFRINIC, APNIC, ARIN, LACNIC, RIPE NCC). Os ASN eram números de 16 bits (de 1 a 65.535) e hoje são de 32 bits, até 4.294.967.295. A 7 de outubro de 2026, os coletores de rotas do RIPE viam 88.105 ASN distintos na tabela de roteamento global.
As redes que aparecem nas medições abaixo:
| ASN | Operador | Papel nos nossos exemplos |
|---|---|---|
| AS24940 | Hetzner Online | Aloja o nosso servidor em Falkenstein, na Alemanha |
| AS16276 | OVHcloud | Aloja o nosso servidor em Gravelines, em França |
| AS20473 | Vultr (The Constant Company) | Aloja o destino de teste em Nova Jérsia |
| AS201011 | Core-Backbone | Transporta o tráfego da Hetzner através do Atlântico |
| AS1299 | Arelion (antiga Telia Carrier) | Fornecedor de trânsito, de Hamburgo a Singapura |
| AS174 | Cogent | Fornecedor de trânsito |
| AS3257 | GTT | Fornecedor de trânsito |
| AS13335 | Cloudflare | Opera o 1.1.1.1 |
O que faz o BGP
Cada AS anuncia os blocos de endereços que detém, chamados prefixos, às redes a que está ligado. Cada uma destas passa o anúncio adiante, acrescentando à frente o seu próprio ASN. A lista de ASN que uma rota atravessou é o seu caminho de AS (AS path). A Vultr, por exemplo, anuncia 108.61.128.0/19, o bloco que contém o nosso host de teste de Nova Jérsia. Eis como algumas redes ligadas ao coletor do RIPE em Londres viam esse prefixo:
1828 20473
36924 1299 20473
15692 174 20473
286 3257 20473
917 60068 174 20473
5511 7922 7922 20473
Leia cada linha da direita para a esquerda. O 20473 é a Vultr, onde a rota começa. Na segunda linha, a rota da Vultr chegou à Arelion (1299), que a passou à rede que a partilhou com o coletor. O 174 é a Cogent e o 3257 a GTT, outros dois fornecedores de trânsito. Na primeira linha, o 1828 (Unitas Global) está ligado diretamente à Vultr. A última linha mostra prepending: a Comcast (7922) repete o seu próprio número para o caminho parecer mais longo, uma forma comum de tornar uma rota menos atrativa para os outros.
Nos 325 caminhos que os coletores tinham para este prefixo nesse dia, um vinha diretamente da Vultr, 50 atravessavam 2 ASN, 172 atravessavam 3, 90 atravessavam 4, 11 atravessavam 5 e um, contando com o prepending, mostrava 7. A maior parte da internet está a duas ou três redes de distância da maior parte do resto.
Como o BGP escolhe entre caminhos
Um router aprende normalmente vários caminhos para o mesmo prefixo. Fica com um, aplicando uma ordem fixa de critérios (simplificada):
- Preferência local: um valor que o operador define segundo a sua própria política. Vem em primeiro lugar e é sobretudo uma questão de dinheiro.
- Caminho de AS mais curto: menos redes a atravessar.
- Tipo de origem e depois MED (uma preferência expressa pela rede vizinha).
- Rotas aprendidas de outra rede (eBGP), preferidas às aprendidas internamente (iBGP).
- Saída mais próxima: o menor custo interno para sair da rede, aquilo a que também se chama roteamento hot-potato.
- Critérios de desempate, como a rota mais antiga ou o router ID mais baixo.
Nada nesta lista mede a latência, a largura de banda ou a perda. A parte do dinheiro segue as relações comerciais:
- Trânsito: uma rede paga a um fornecedor para chegar a toda a internet. A Arelion é um dos fornecedores de trânsito da Hetzner: no nosso rastreio para Singapura, todos os saltos de Hamburgo a Singapura pertencem ao AS1299.
- Peering: duas redes trocam tráfego entre os seus próprios clientes, normalmente sem pagarem uma à outra, seja por uma ligação direta, seja num ponto de troca de tráfego (IXP).
- Uma rede prefere as rotas dos seus clientes (pagam), depois as dos seus pares (gratuitas) e depois as dos seus fornecedores (paga ela). E só passa aos seus clientes as rotas aprendidas de pares e de fornecedores.
O resultado é o caminho aceitável mais barato para cada rede ao longo do percurso, não o mais rápido para si. O nosso rastreio da Alemanha até Sydney demora 341 ms, quando a distância, isoladamente, permitiria cerca de 162 ms; no nosso estudo da latência cloud a partir de 33 cidades, Joanesburgo chegava a São Paulo pela Europa. O roteamento hot-potato torna também a maioria dos caminhos assimétricos: cada rede entrega o tráfego na sua saída mais próxima, pelo que o caminho de volta muitas vezes não é o de ida.
Ver as fronteiras entre AS num traceroute
Com mtr -z, cada salto mostra o AS que anuncia o seu endereço. Para o mesmo host de Nova Jérsia, no mesmo minuto, a partir dos nossos dois servidores:
A partir de Falkenstein (Hetzner)
4. AS24940 juniper5.dc2.nbg1.hetzner.com 0.0% 100 3.0 5.2 2.8 65.6 9.2
5. AS201011 ae12-499.nbg40.core-backbone.com 0.0% 100 3.2 3.0 2.7 3.3 0.1
6. AS201011 ae7-2093.nyk10.core-backbone.com 0.0% 100 86.6 86.7 86.5 87.0 0.1
7. AS??? ??? 100.0 100 0.0 0.0 0.0 0.0 0.0
10. AS20473 66.55.138.149.vultrusercontent.com 2.0% 100 85.7 85.9 85.6 87.3 0.2
11. AS20473 108.61.149.182.vultrusercontent.com 0.0% 100 86.2 86.4 85.9 107.1 2.1
A partir de Gravelines (OVHcloud)
10. AS16276 be102.lon-drch-sbb1-nc5.uk.eu 1.0% 100 3.8 3.7 3.5 4.1 0.1
11. AS16276 nyc-ny1-sbb2-8k.nj.us 0.0% 100 73.0 73.4 71.6 76.0 0.8
13. AS??? nyiix.gi3-6.cr1.nyc1.choopa.net 0.0% 100 72.7 72.5 72.3 73.0 0.1
17. AS20473 108.61.149.182.vultrusercontent.com 0.0% 100 71.7 71.7 71.5 73.0 0.2
- A partir de Falkenstein, a Hetzner entrega o tráfego à Core-Backbone em Nuremberga (salto 5), que atravessa o Atlântico (salto 6, Nova Iorque), e depois a Vultr assume-o (salto 10).
- A partir de Gravelines, a OVHcloud transporta o tráfego na sua própria rede, via Londres, até Nova Iorque, e depois entrega-o à Vultr no NYIIX, um ponto de troca de tráfego de Nova Iorque (salto 13). Os endereços do ponto de troca não são anunciados no BGP, daí o
AS???. - Duas rotas, dois caminhos de AS e uma diferença de 15 ms para o mesmo servidor.
Três ressalvas ao ler números de AS num rastreio: numa transição, a ligação entre duas redes usa muitas vezes endereços de uma delas, pelo que a fronteira pode aparecer um salto mais cedo ou mais tarde; os endereços privados (10.x, 172.16 a 31.x, 192.168.x) não têm AS nenhum; e o rastreio só mostra o caminho de ida.
Até que ponto estas redes estão ligadas
O RIPEstat conta as redes vistas imediatamente ao lado de cada AS nos caminhos BGP. A 7 de outubro de 2026: Arelion (AS1299) 2.646, Vultr (AS20473) 1.728, OVHcloud (AS16276) 537, Hetzner (AS24940) 267. Um grande fornecedor de trânsito como a Arelion é vizinho de milhares de redes; a Vultr, que faz peering em larga escala, de mais de mil; a Hetzner, de algumas centenas, entre elas vários fornecedores de trânsito.
Quando o BGP corre mal
- Sequestros de prefixos: um AS anuncia um prefixo que não lhe pertence. Em fevereiro de 2008, a Pakistan Telecom anunciou parte do espaço de endereçamento do YouTube; a rota espalhou-se pelo mundo inteiro e desviou o tráfego do YouTube durante cerca de duas horas.
- Fugas de rotas: uma rede passa rotas adiante onde não devia, por exemplo de um fornecedor para outro, e o tráfego desvia-se através dela.
- Retiradas de rotas: a 4 de outubro de 2021, o Facebook retirou as rotas para os seus próprios servidores DNS durante uma manutenção, e os seus serviços ficaram inacessíveis durante cerca de seis horas.
A validação da origem das rotas por RPKI, hoje aplicada pela maioria das grandes redes, rejeita os anúncios cujo AS de origem não corresponde ao que o titular dos endereços publicou. Trava os sequestros mais simples, não as fugas.
Verifique por si
- O AS de origem, os caminhos de AS e os fornecedores a montante de qualquer IP ou prefixo: a pesquisa de ASN e o visualizador BGP do TraceMapper.
- O ASN por trás de um endereço, com whois, bgp.he.net ou RIPEstat: como encontrar o número de AS de um IP.
- Como se vê uma rota a partir de dentro de outra rede: os looking glasses da Arelion, Lumen, Cogent, NTT e outros.
- Que redes o seu tráfego atravessa: um traceroute do TraceMapper mostra o AS de cada salto num mapa.